…quando eu crescer quero ser Engenheira Eletricista!

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Campina Grande, em uma bela madrugada de “estudo”, regada a muita comida as 3 mosqueteiras conversavam sobre seus possíveis futuros: se me chamarem para ir trabalhar no meio dos matos na Floresta aceito na hora. Tu é doida Camila!

Não aqui não tem índio de tanguinha, não vi nenhuma onça ainda, Sucuri me mandaram passar longe dos Igarapés que são cheios, mosquitos isso eu vi muito e são estilo mutante.

Porto Velho, Rondônia, você parou para pensar que esta mais perto do Pacífico do que do Atlântico, que a única pessoa que você conhece é seu chefe que vive viajando, que você não tem nenhuma experiência de trabalho além dos laboratórios e pesquisa da universidade, que vai ter de tomar conta sozinha de uma obra gigante com 80 piões, o ambiente de trabalho é dominado por homens e o sol, ah…o sol é escaldante. Calcei minha bota, e fui.

Subestação sempre foi a minha menina dos olhos da graduação,  fiquei encantada na minha primeira visita técnica na disciplina de Equipamentos, no laboratório fazia questão de abrir os equipamentos, meter a mão, futucar tudo, os meninos já me davam logo uma chave de fenda.  No meu TCC escolhi como tema algo relacionado com HVDC porque achei muito interessante a tecnologia, transmitir energia a longas distâncias com menor perda, as estações de conversão eram fascinantes, ralei para achar material, ninguém da universidade trabalhava com isso, e lá vai eu doida escolher esse tema.

Uns chamam destino, outros coincidência, eu chamo de boas escolhas e oportunidades.

Sabe criança com aquele brilho nos olhos que dá gosto de ver, eram os meus ao conhecer a obra.

Quase 3 km², uma parte pequena de 230kV que vai para o Acre, outra parte de 500kV em AC que recebe 3300MW de 3 linhas da usina de Jirau, e 3150MW de 4 linhas da usina de Santo Antônio, 2 prédios com as estações conversoras AC/DC, uma parte de 600kV DC que transmite a energia para a maior linha de transmissão do mundo em HVDC de 2375km direto para Araraquara em SP onde é interligada ao SIN (Sistema Interligado Nacional) e manda energia para sua casa.

É tudo imenso, os transformadores instalados tem 550 toneladas, as paredes corta-fogo parecem de usina, muito grande, é tudo grande, e lindo.

A obra é tão grande que foi dividida em lotes entre várias empresas como a Odebrecht, Semp Toshiba, Abengoa, Montrel( empresa que eu trabalho),  entre outras. Os equipamentos são da fodástica ABB, vei, eu conheci os suecos da ABB, coisas que vi no papel, e toquei com essa mãozinha aqui de nada quem nem tamanho de gente tem e vou ver funcionando. Isso é lindo!

Eu to sugando conhecimento mais que aspirador de pó no turbo, meu chefe é nível Yoda em construção de subestação conhece a parte civil, mecânica, elétrica, montagem, operação, sabe muito.

Além de a obra ser de uma magnitude incrível, um dos motivos principais de eu ter vindo foram as pessoas com muita experiência na área que estou conhecendo. Esse sábado estava eu almoçando a feijoada delicia no refeitório quando chega o Godfather da obra toda,  um senhor Boliviano de barba branca,  no meio da conversa eis que ele diz que se formou em 73 na UFCG, oxi, eu também oia que mundo pequeno. E tome rasgação de seda da UFCG, orgulho da universidade que me formei.

Como disse meu chefe viaja muito, com uma semana de experiência estava eu sozinha para tomar conta de tudo, mas é tudo mesmo, a única engenheira da empresa na obra sou eu, a menina que íamos contratar para o RH desistiu da vaga, virei uma faz tudo e com muito prazer do que faz, do administrativo, financeiro ao técnico, o que não sei aprendo na tora. 80 piões e uma obra imensa!

É muito gratificante ver a evolução do trabalho, um pátio que só era terra, no fim do dia ter pórticos e vigas, no outro equipamentos, no outro pátio ver as caixas de junções sendo montadas com trocentos fiozinhos, e eu aprendo que chicote não é só o de bater também tem nos equipamentos, brasileirinho é o fio terra por causa da cor verde e amarela, Manaus é um tipo de cabo do barramento, macaquinho é um negocinho no suporte dos painéis…aprender é tão bom e na prática é melhor ainda.

Fui muito bem recebia por todos do meu chefe, a piãozada, e os funcionários das outras empresas, isso ajudou muito, é difícil ficar tão longe da família e amigos e ainda mais em um local altamente masculino, fui conhecer uma mulher 1 semana depois, por sinal muito gente boa que trabalha no RH da Abengoa.

Passo o dia inteiro na obra, tomo café e almoço junto com a piãozada, eu fico impressionada com o jogo de equilíbrio para comer a montanha dos pratos.

Muitos deles são haitianos que vieram em busca de melhores condições de vida, são os que fazem os melhores trabalhos, quatro deles trabalham junto com uma das equipes da minha empresa. São os mais sorridentes, todos os dias quando vou tirar as fotos para o RO fazem pose, me pedem para tirar foto: Dona Camila, foto, foto. Até amanhã! Dou muito  valor a quem tem que derramar o suor para trabalhar e teria muitos motivos para não sorrir ou reclamar da vida e são os mais sorridentes.

As maiores lições de vida que eu aprendo são das pessoas mais simples, que me ensinam sempre a valorizar tudo que a vida me dá todos os dias.

O trabalho no campo é duro, o sol daqui é muito quente, e o clima é maluco, tá um sol de matar e do nada fecha tudo e cai uma chuva tensa.

Me lembro como hoje quando era pequena me escondia embaixo da cama para esperar meu pai chegar do trabalho, ele tirava as botas e jogava as meias no meu rosto eu pegava no pé dele para fazer susto e me acabava de rir. Todos os dias quando chego, tiro minhas botas iguaiszinhas as dele, no futuro contarei a história aos meus netos e eles vão passar pela subestação e dizer: minha avó ajudou a construir.

 Da sessão o mundo é um caroço de azeitona, um dos meninos que se formou na turma de elétrica antes da minha estava trabalhando em Porto Velho, eu jurava que era na Usina, quando ele me manda mensagem: vi uma ruiva andando na subestação no Lote C hoje era tu? Ele não só estava trabalhando na mesma subestação que eu como no lote vizinho.

No fim de semana passado sai com ele e os meninos da Abengoa, se eu for depender de conhecer mulher aqui vou sair nunca, preciso ir para salão de beleza. Eu pensava que só ia ver índio, mas é uma misturada retada, gente de todos os tipos, tem até Ferrari no fim do mundo, na boate era sertanejo tinha cowboy vestido com chapéu, cinto e bota que dançavam batendo pé quase quebrando o chão. Sempre brinquei que ia ser marinheira, não ia casar e ter um amor em cada Porto, não imaginava que o Porto que me referia era Porto Velho,  quando chego na boate, a primeira coisa que vejo: Jack Danieeeeeels, meu amor.

Cada dia é um novo aprendizado, profissionalmente foi a melhor decisão que eu tomei, emocionalmente é difícil pela saudade, essa semana minha mainha foi assaltada, passou mal e tudo, meu coração apertou de um jeito, era eu chorando daqui e ela de lá, distância é uma coisa muito ruim e mais uma vez ela entra na minha vida. E o que me dá força para continuar aqui é que sei que poderei retribuir todo esforço que ela fez para eu conseguir o meu sonho de ser engenheira, e em breve quando meu irmão terminar o ensino médio não deixarei ela trabalhar mais, agora é a minha vez de cuidar dela.

No pain, no gain.

…ao som de Sigur Rós!

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